Você não quer preço acessível, quer preço canibalizado!


Virou moda o uso da palavra 'acessível' em diversos movimentos pra que algo seja extremamente barato, com a justificativa de atender às pessoas de periferia.
Me deparo muito com esse questionamento pelo fato de trabalhar com gastronomia vegana. Constantemente as pessoas querem que as comidas a base de vegetais sejam o mesmo preço ou mais baratas que uma comida feita com ingredientes de exploração animal. E sempre com a justificativa de: não tem sentido ser mais caro, a carne é a parte mais cara.

Mas o que ninguém se questiona, é que o preço de uma comida com insumos animais pode estar barata demais, e se dar conta disso envolve muitas camadas de compreensão.

Só quando comecei a precificar os meus pratos que entendi que vender o cento de salgadinhos de festa a R$30,00 é insano e não pagava as minhas contas. Quem consegue sustentar esse preço são duas pessoas:
- Donos de fábricas de salgados que tem processos altamente industriais e diminuem o custo de produção absurdamente e isso infere diretamente no pagamento dos funcionários.

- Pequenos produtores que trabalham 5 vezes mais que o saudável pra conseguir um lucro razoável. Em geral colocam o preço baixo demais pra conseguir vender e barrar a concorrência. Mas isso na verdade só desvaloriza a mão de obra do seu próprio trabalho.

Mesmo que se compre os insumos mais baratos ou venda grande quantidade, é absurdo o trabalho que dá produzir e o retorno financeiro que gera quando se cobra barato demais.
Uma coxinha, por exemplo, pra massa você precisa de farinha de trigo, água, óleo e sal no mínimo. Em geral, os salgados fritos de origem animal levam caldo de carne (simplificação do tempero pra qualquer coisa) e peito de frango (seguindo o exemplo da coxinha). Pra produzir a massa do salgado frito é necessário ter bastante força no braço e bater a massa para que ela chegue na consistência ideal. A coxinha é o salgado que mais vende, e também o que dá mais trabalho pra fazer. Modelar salgados de um modo geral ao mesmo tempo que é um trabalho artesanal admirável, é uma função que desenvolve sérios problemas de tendinite, e a coxinha tem uma técnica bem específica que ou você tem facilidade de modelar, ou você é um desastre. Uma máquina industrial pra modelar coxinha custa em torno de 8 mil reais (uma de pequeno porte, pra pequenos empreendimentos) e um pequeno produtor não tem esse dinheiro pra investimento.
Imaginando um cenário onde um produtor tem só 10 encomendas, ou seja, mil salgados pra produzir, o custo aproximado é de R$150 incluindo ingredientes, água, luz e gás. Se esse salgados forem vendidos a R$30 o cento, o produtor terá um faturamento de R$300, gerando um lucro de R$150.
Pra modelar sozinha mil coxinhas, uma pessoa muito habilidosa levaria no mínimo 12h de trabalho. Esse tempo só modelando, não tô incluindo compras, preparação de recheio, preparação de massa, embalagem e entrega (que em geral a própria pessoa que faz).
Um preço minimamente digno, seria o cento de um salgadinho a partir de R$50,00, onde a pessoa tem um lucro mais razoável sem estar em condições de trabalho péssimas.
No caso de um salgadinho vegano, seguindo o mesmo raciocínio da coxinha, a conta não muda muito.  Mesmo uma coxinha de jaca, que em tese é um insumo na maioria das vezes gratuito, ele encarece em outros processos. Se gasta mais gás pra cozinhar, pois a jaca não é igual a um peito de frango que cozinha rápido, ela necessita de pressão e mais tempo de cozimento. O processo de preparação pra cortar e desfiar a jaca é completamente diferente de um frango. Isso leva mais tempo, e agrega valor na mão de obra, por aumentar a complexidade da receita. O valor do produto final, não é só a parte de cozinhar e o preço dos ingredientes. Na época em que eu trabalhava com encomendas, sozinha (realidade da maioria dos pequenos produtores), eu precisava ir no mercado e no sacolão pra comprar os insumos. Voltava das compras com o carrinho de feira abarrotado de coisa, penando pra subir escadas e entrar em transportes públicos. Em casa, tinha que cuidar das mídias sociais, conversar com os clientes, agendar entregas e trabalhar na divulgação pra conseguir aumentar ou no mínimo manter a minha clientela.

No centro do Rio é muito comum ver umas barraquinhas de salgados grande a R$2,00, incluindo um copo de refresco. No início era isso que eu curtia enquanto militante favelada, achava que isso que era democracia alimentar, até descobrir que as pessoas que estão vendendo nem sequer são as donas daquelas barracas.
Fazendo as contas e tendo acesso a tudo que um produtor passa, é possível ver que tem alguma parte desses empreendimentos onde se ganha uma vantagem para haver lucro. Em geral, essa vantagem é através do trabalho escravo, já que pra aumentar a produção, você precisa aumentar seus funcionários ou colocar os poucos que tem pra trabalhar mais horas.
E essa exploração, você pode causar a você mesmo. Como é o caso das pessoas que se submetem a essas condições com medo de não venderem seus produtos.

Por conta do consumo não consciente, as pessoas não sabem valorizar o trabalho do outro e não conseguem ter a capacidade de sentir quando existe uma cadeia de exploração por trás. 
Eu falei ano passado aqui no blog sobre a Dona Selma, dona de um restaurante vegano que tem em São Paulo. Ela serve um pf gigante e muito barato, (na época que fui tava R$12), além de diversos salgados e doces. Quando eu terminei de almoçar, eu paguei com uma nota de R$20 e disse que não precisava de troco. A menina que me atendeu simplesmente bugou. E eu também buguei, porque me perguntei "porque isso não acontece com frequência?".
É preciso dissecar o funcionamento da prioridade econômica das pessoas, pra entender pra onde vai o dinheiro delas, e o que elas consideram justo.
Clama-se por preço acessível, e acham que preço honesto é o prato de 10 conto entupido de comida, mas ninguém sabe ou finge não saber o que tem por trás daquela produção.
E são as mesmas pessoas que pagam mais caro em outro lugar badaladinho, com o pretexto de que é um dinheiro bem gasto.
Ninguém tá economizando hoje em dia. As pessoas estão viciadas em comprar barato. Se algo custa R$20, e hoje tá R$10, ela não leva um item só e economiza, ela pega 2 produtos e diz "nossa, tá muito em conta, vou comprar 2".
Na maioria das vezes, quem paga mais caro em outros restaurantes, na hora de dar uma gorjeta pra produtoras como a Dona Selma que dorme dentro do próprio restaurante diversas vezes por não ter tempo de ir pra casa por estar cozinhando, é a mesmíssima pessoa que diz que o preço da Dona Selma é justo e acessível.
Se você pode pagar mais, pague mais. Valorize o trabalho dessas pessoas. Dona Selma põe o pf dela a esse preço não é pela militância da acessibilidade não, é pela militância da vida dela! Que precisa sobreviver e pagar as contas, e sabe que se cobrar R$20 no prato, perde mais da metade dos clientes. E não são clientes que não podem pagar R$20, ela vai perder clientes que só querem consumir coisas baratas loucamente. 

As pessoas não sabem ser anfitriãs mas querem dar festas

Sempre nos culpamos pelo perrengue que passamos nos aniversários e casamentos de amigos. É muito desaforo levar comida de casa dentro de bolsa apertada sendo que todos os outros convidados estão sendo bem recebidos. No final das contas, estamos catando as frutas da decoração e bebendo suco ou cerveja.
Desde que comecei a trabalhar com o buffet, pude entender de verdade qual é o problema com convidados veganos.
Não, você não é fresco. E você não tem que ser o único convidado a gastar dinheiro e fazer comida pra levar, pois o problema não é você, o problema é o seu anfitrião.


Desde festas em família até grandes eventos, esse problema é recorrente. Quando planejamos uma festa, e pretendemos gastar dinheiro pra isso, uma das maiores preocupações de quem paga, é saber se todos os convidados vão gostar. Por isso vemos pessoas por muitas vezes se afundando em dívidas, ou fazendo um bom planejamento a longo prazo pra poder gastar com o melhor buffet. Porque como minha tia diz "pode estar tudo ruim numa festa, menos a comida!".
As pessoas querem muito agradar aos seus convidados e por isso pensam no melhor pra servir no buffet. Um buffet vegano não vem em mente para um anfitrião não vegetariano, porque pra maioria das pessoas comida vegana é ruim, e servir comida ruim num dia importante da sua vida está fora de cogitação. Então além de não oferecer comida vegana aos seus convidados, ela também priva o próprio vegano de pratos veganos.

Mas a pergunta que nos fazemos é "poxa, será que sou fresco por exigir que tenha algo pra eu comer na festa?"


Um bom anfitrião, tem que conhecer os seus convidados, e precisa saber se alguém tem alguma restrição alimentar, pra assim poder atendê-lo.
O que acontece em 90% dos casos, é que as pessoas se preocupam com todas as restrições e gostos alimentares, mas ignora o vegetariano. E sabe por quê? Porque ela é teimosa.

Isso acontecia em todas as festas que minha mãe era anfitriã. No meu quadro familiar, as pessoas que tem restrições alimentares são meu avô e minha tia avó. Meu avô, que tem diabetes e geralmente vai de carro pros lugares mas adora uma cervejinha, tem em TODA FESTA, repito, TODA FESTA organizada pela minha mãe, opções de bebidas sem açúcar e cerveja sem álcool. E quando esquecem de comprar a bendita cerveja, um corre no mercado pra comprar. E minha tia avó além de ter pressão alta tem labirintite e um belo dia resolveu fazer uma bendita simpatia pra aliviar as tonturas, em que ela precisava escolher a fruta favorita dela pra nunca mais comer na vida. A fruta favorita dela era manga, e desde então, TODO SANTO NATAL que minha mãe organiza tem uma salada de frutas sem manga separada pra ela. Enfatizo: não com as mangas catadas da salada, e sim uma salada que foi preparada sem a manga. E todas as comidas são feitas com pouco sal quando ela está presente (lê-se nenhum sal, pq conforme foram passando os anos, o paladar dela pra sal foi ficando cada vez mais sensível, uma pitada de sal pode ser considerado salgado pra ela).Com o tempo, e também trabalhando comigo no buffet, minha mãe entendeu que realmente não fazia sentido sua linha de raciocínio, e ela precisava ser uma anfitriã coerente e mais empática. E foi desmitificando a ideia de que oferecer opções veganas é mega difícil e inacessível.



A ideia de bancar uma festa, é proporcionar uma experiência aos convidados. Não faz sentido desdenhar das especificidades de um deles.
Por isso, se um convidado da festa é intolerante ao glúten, à lactose, é vegano... não é muito simpático quando acham que somos frescos. Pois na hora de escolher pelo filé mignon e pela lagosta, ninguém pensou em frescura.
Uma amiga compartilhou uma história que aconteceu durante os preparativos do casamento de sua irmã, onde ela seria madrinha. A irmã dela tinha orgulho em dizer que não teria nada vegano pra ela comer. A própria irmã a tratou dessa forma, e o lugar de madrinha, que em tese é uma pessoa super especial, também não valia de nada.
Sendo que nesse mesmo casamento, a noiva fez questão que o bolo não fosse de chocolate, pois sua sogra odiava chocolate, e ela queria agradar a sogra.
Isso não é cruel e desonesto?


Por muitas vezes fingem não saber fazer nada só porque tá com preguiça!
No primeiro ano que a esposa do meu sogro me recebeu pra um almoço que ela fez no aniversário dele, eu comi arroz, feijão e legumes cozidos. Ela tinha preparado pra ele peixe assado (daqueles que se gasta um bom dinheiro na peixaria pra impressionar quem vai comer), lasanha, além das coisas que eu comi. Foi um almoço farto, e ela disse que fez os legumes por minha causa. Achei muito bacana da parte dela, em não saber direito o que fazer pra uma vegana, e apostar ao menos em legumes cozidos.
No segundo ano que a esposa do meu sogro me recebeu pra um almoço que ela fez no aniversário dele, eu comi arroz, feijão e legumes cozidos. Ela tinha preparado pra ele peixe assado (daqueles que se gasta um bom dinheiro na peixaria pra impressionar quem vai comer), um gratinado lá cheio de queijo, além das coisas que eu comi. Foi um almoço farto, e ela disse que não sabia o que preparar pra mim, então só tinha os legumes. Sendo que numa festa da família anterior, eu levei bobó de palmito e todos se esbaldaram, conversei com ela várias ideias de receita, e várias preparações fáceis que ela podia fazer. Fiquei sentida, não me senti acolhida. Mas comi feliz, achando q era parte do processo de aprendizagem.
No terceiro ano que a esposa do meu sogro me recebeu pra um almoço que ela fez no aniversário dele, eu comi arroz, feijão e legumes cozidos. Ela tinha preparado pra ele peixe assado (daqueles que se gasta um bom dinheiro na peixaria pra impressionar quem vai comer), um bacalhau cheio de coisa, além das coisas que eu comi. Foi um almoço farto, e ela disse que não sabia o que preparar pra mim, então só tinha os legumes. Eu me senti o membro mais inútil daquela família. Eu fiquei 1 mês na casa dela de favor, na época da minha mudança, fazia várias vezes o jantar, ela via diversas opções, falava com ela diversas coisas que ela poderia fazer, e mesmo assim, aparentemente, não sou uma convidada tão especial pra ter um planejamento de almoço decente como ela tem pro restante dos convidados.
No quarto ano que a esposa do meu sogro me convidou, eu disse que se fosse pra comer legumes não iria.
Ela não tem obrigação nenhuma de cozinhar pra mim. Mas porque ela tem prazer de cozinhar pra receber os outros parentes e pra mim faz legumes apáticos?
Podemos sempre levar um prato feito por nós pra conquistar os convidados, mas precisamos saber o momento em que o anfitrião da festa abusa da nossa boa vontade porque tem preguiça de nos agradar também.

Será que não é obrigação do anfitrião oferecer comida vegana pra você só porque na sua festa não teve carne?
Quando se faz uma comparação como essa, induzindo que nós não somos bons anfitriões, a pessoa realmente não entendeu o que significa veganismo.
De fato, serei uma péssima anfitriã caso ofereça uma comida estragada, carne soja com gosto de ração, macarrão passado...caso contrário, estou apenas, de acordo com os meus princípios éticos, te recebendo numa festa organizada por mim.
Da mesma forma, que uma pessoa que não consome bebida alcoólica por motivos éticos, quando dá uma festa não oferece essas opções, mas quando vai na festa dos amigos, mesmo tendo bebida alcoólica, consegue facilmente beber opções sem.


É possível oferecer opções veganas nas festas, basta conversar com um vegano por 5 minutos.

A alimentação a base de vegetais é cara? O povo preto sofre as piores consequências de um mito

Não entendo quando falam que veganismo é caro baseado em tempo.

"O veganismo é caro porque não tenho tempo de preparar minha comida"


Engraçado como todos resumem veganismo apenas a comida. E muitos veganos reforçam essa ideia quando defendem o movimento animalista com o argumento de que cozinhar em casa é mais barato, e que é só fazer sua própria comida que fica tudo bem, sem mencionar mais nada além de cozinhar.
Mas sabemos que o cotidiano de muitas pessoas periféricas, em geral pretas, não é tão simples assim.
Tempo é privilégio.
Sempre que inicio as minhas oficinas (Vegano pobre, e agora?) eu faço um exercício em que separo a turma em dois grupos. Um grupo de pessoas que fazem sua própria rotina de trabalho ou cuidam da casa e dos filhos; E outro grupo de pessoas que passam a maior parte do tempo no transito indo pro trabalho e voltando. E essa parte é sempre um divisor de águas porque ali naquele momento, todos os alunos entendem qual vai ser a mensagem de toda a atividade.

Mas a prioridade é também outro fato na vida do pobre ainda que ele não se dê conta disso.

Prioridade por exemplo, é quando o pobre tá no aperto, cheio de conta, mas mal ou bem tem um carro porque comprou em algum determinado tempo da vida dele. Isso foi uma prioridade.
E é por isso que muitas pessoas pobres não veem ou não querem considerar o veganismo, porque elas tem outras prioridades, estar vivo por exemplo.
E estar vivo implica em não mexer em time que está ganhando. Já que tirar a carne vai dificultar pra um trabalhador que já aprendeu o truque de conseguir se manter firme no joguinho da vida

Qualquer vegano, que não consegue compreender o porque muitas pessoas pobres e pretas não consideram o veganismo, é estruturalmente racista.

Só que esse texto, não é só pra compreender o lado das pessoas pobres. Esse texto, é direcionado àquelas pessoas que foram levemente tocadas pela questão dos direitos animais (ou algum contato mínimo com a natureza) e FINGE que não tem tempo pra isso. 
Já ouvi diversos relatos de pessoas dizendo que foram vegetarianas por um tempo, mas era muito caro... se era caro, significa que você fez alguma coisa errada. E tudo bem, mas saiba que: procurar informação sobre isso não te mataria antes de desistir de uma luta válida como essa que é sobre o equilíbrio da natureza. 

Se você se programa pra fazer arroz, feijão, frango e salada de alface e diz que não tem tempo pra cozinhar, você tá mentindo. Porque você tanto teve tempo que cozinhou arroz, feijão, frango e a salada (parece meio óbvio, não?). 
Não é mais caro ou mais trabalhoso trocar o frango em casa por um legume de cocção rápida. 

Se você come quentinhas prontas no trabalho, existem diversas possibilidades que podem se encaixar na tua realidade. São elas:
- Você dialogar com quem vende determinada quentinha, e perguntar se não pode fazer pra ti uma quentinha com legumes no lugar da carne (isso serve pra mesma situação se você come no refeitório do próprio trabalho, então se você tem uma restrição alimentar, por lei, ela deve ser respeitada).
- Você pode procurar outro lugar, como restaurantes self-services onde você tem mais liberdade e escolhe mais variedade pra por no prato. Tem restaurantes de comida a vontade por R$13,00 e que tem como se virar SIM. Não importa se não tem "pratos veganos" desapega dessa ideia.
- Ou você pode aceitar que no almoço sempre vai comer uma comida mais ou menos, porém suficiente pra você ficar de pé. E em casa poderá fazer uma comida mais caprichada, nas jantas da semana ou no nos finais de semana, que seja. Se apegar a ideia de que não é o fim dos tempos comer poucas coisas, é libertador na verdade, porque você passa a dar valor aos alimentos. E um pobre vegetariano tem uma consciência alimentar do caralho. Minha comida preferida por exemplo, é arroz, feijão e tomate, e eu tô bem com isso.


Essa quentinha eu costumava comprar quando trabalhava em casa no Caramujo. Custava R$10,0 e todo dia tinha uns 3 tipos de pratos. Em geral eu comia sempre essa opção: arroz, feijão, batata frita, legumes cozidos, alface e tomate. Os caras sabiam que eu era vegetariana,  então sempre caprichavam pra mim!
Teve um dia que eles demoraram pra entregar, e quando eu perguntei o que tinha acontecido o rapaz me respondeu:
- Po, o feijão que tinha aqui hoje era da feijoada que teve ontem, aí pra não te dar esse feijão eu fui lá em casa pegar um pouco do feijão que dou pra minha filha pra fazer sua quentinha.
Comunicar com eles que eu era vegetariana, falar que seria legal uma opção específica.. esses diálogos constroem possibilidades.


Não ter opção vegetariana pra lanchar na rua depende da sua perspectiva. A gente que tá culturalmente habituado a achar que lanche é comer um salgado.
Passar num sacolão e comprar 1 maçã vai parecer REVOLTANTE!
Mas é inegável que qualquer lugar da cidade que você trabalhe, seja centro, zona sul, baixada, zona oeste, tem sempre uma rua próxima com um sacolão ou mercadinho onde você pode lanchar uma fruta.
Porém em geral, queremos massagear o nosso ego. Um croassaint satisfaz mais... você na verdade não quer deixar de comer comida 'boa' por causa dos animais.




Mas afinal: o que é comida boa?

Quais são as suas prioridades na vida? E porque comer uma fruta ao invés de um salgado na rua te faz pensar que você não pode comer um salgado vegano em algum outro determinado momento da sua rotina com a economia que estará fazendo de pouco a pouco investindo na fruta por uns dias?
O maior problema em considerar o veganismo, é quando você é pobre e quer levar uma vida de luxo, que acha que tem quando consome determinados produtos de origem animal.
Em geral, a população preta acha que tá bem de vida quando consome produtos que na verdade estão a matando mais do que policiais.

E esse é um grande problema da população preta em diáspora, no geral. Nós nos alimentamos mal, porque achamos que merecemos um salgado de queijo e presunto ao invés de uma fruta. E para além disso, não nos imaginamos comendo esse mesmo salgado de forma muito mais ética e menos negligente ao próprio corpo. Pra um preto que só quer ter o mesmo "luxo" de um branco rico, é estarrecedor se ver comendo um salgado de brócolis ou alho poró, já que ostentação de verdade é se entupir de bacon.
É muito triste, ver que pra muitos pretos politizados aqui no Brasil, a alimentação não seja um tema importantíssimo. Muitos desconsideram a alimentação vegetariana sendo que ela é muito mais barata do que uma alimentação a base ou derivada de animais, e isso seria um impacto imenso na economia dos negros.
Além do que, é uma alimentação naturalmente saudável ainda que seja mais voltada pras besteiras, o que evitaria a maioria das pessoas pretas doentes.
O estado só quer nos matar, se livrar da dependência dele através da alimentação é libertador.

Claro que tudo isso que eu digo, não se enquadram pessoas que dependem de cestas básicas ou doações.
A intenção é mostrar pra pessoa que escolhe comprar salsicha, que ela pode escolher comprar feijão.
E infelizmente nem todo mundo tem esse direito de escolha.

Um dia, o Ruan, meu amigo falou uma parada que achei genial!

A galera se vendendo pra Unilever por causa de uma xoxota de maionese, cara. MAIONESE. Uma das coisas mais toscas do mundo de se preparar.

"Ai, mas a dona Maria no morro não pode preparar maionese". Viado, eu moro numa favela, com a galera daqui minha abordagem é outra, se preocupa com as donas Marias não. O papo é você, que tem tempo de ver 50 stories de artista que tá virando vegano mas não tem cinco minutinhos pra emulsionar maionese em casa.


Prioridade é igual vergonha na cara. Nem todo mundo tem.
Pelo fim de veganismo de consumo.



O que mais vemos, é gente ao nosso redor, que passam o tempo todo de suas vidas na internet, que só se dedicam aos estudos, ou que tem uma carga horária de trabalho não tão pesada, falarem pelas pessoas menos privilegiadas e se esconderem atrás delas também.
Nesse exemplo que o Ruan dá, sobre a maionese, as pessoas que defendem a presença desse produto nos mercados, além de usarem o pobre como desculpa, o usam pra justificar o seu próprio consumo.
NÃO SE PREOCUPA COM AS DONAS MARIAS NÃO! Com elas a nossa abordagem é outra, é veganismo acessível de verdade, não é ficar discutindo sobre marca de maionese não.
Com os vizinhos aqui do morro, ativismo real é falar sobre consciência alimentar. E na boa? Eu tô mais preocupada em conseguir montar uma horta pra nossa comunidade  e ter comida ética e de qualidade do que discutir maionese fabricada por empresa que faz testes em animais e o vegano "ninguém toca no meu Ades" defendendo essa vergonha.

Por uma alimentação consciente e que nutra o nosso povo como merece.

Por que eu não demorei pra excluir ovos e leites da minha alimentação?

Muitas pessoas me perguntam como eu consegui excluir todos os produtos de origem animal da minha alimentação tão rápido. E como consegui me adaptar a tudo de uma forma "fácil".

Pra ficar fácil entender o que se passou na minha cabeça, vou dividir por partes as coisas que foram acontecendo.

Pensamento n° 1
Em primeiro lugar, quando descobri o que era veganismo, eu já sabia que envolvia a abolição de qualquer produto de origem animal (o que incluía ovos e leite, obviamente). Quando eu pesquisei sobre as indústrias do leite e dos ovos vi toda a barbaridade que acontece com as vacas e as galinhas, então já tinha colocado na minha cabeça que ovolactovegetarianismo deveria ser apenas uma fase de transição, e não um ato em que eu acharia que estava salvando o mundo. Então sempre que eu ouvia alguém falando sobre como ainda consumir ovos e leites prejudicava os animais, eu abaixava a cabeça. Sim, cada um possui o seu tempo de adaptação, mas precisamos controlá-lo para não virar comodismo.
Isso parece normal para você? (Imagens retiradas do Google)
Pensamento n° 2
Eu tentava criar regras pra mim mesma, para evitar o consumo desses produtos só por gostar. Eu consumia ovos e leite somente quando não tinha ou achava que não tinha opção vegana pra comer naquele determinado dia.
Porque assim como eu adorava picanha, peito de frango... eu também adorava queijos, iogurtes... Então eu evitava comer laticínios e ovos com aquela desculpa esfarrapada de  "porque é gostoso e não consigo largar"
Se você tá iniciando um processo de se alimentar apenas de vegetais, e você já eliminou a carne da sua alimentação, não faz muito sentido você se apegar a essa justificativa de "ai é que eu amo um queijin". Você também não adorava carne? Sim, tem pessoas que são ovolactovegetarianas porque nunca se deram bem com carnes, mas é uma parcela bem pequena. Eu tô falando de você amigo, que quer lutar contra a crueldade animal, excluiu a carne da sua alimentação, treta na internet sobre especismo, mas consome queijo porque diz que não consegue largar...amigo, você não tá nem tentando.
E é por isso que eu consegui me adaptar naturalmente e de forma rápida. É porque todo dia e a todo momento que eu ia comer alguma coisa eu REALMENTE estava me "transformando" ou seja "transicionando".
Tem pessoas ovolactos que tem a opção de comer comida vegana, mas põe queijo em toda a alimentação que faz sem a menor necessidade.
Se sabe de toda a atrocidade que é a indústria leiteira, porque não há mudança? Porque a pessoa não parece tentar? É ovolacto, mas compra mil tipos de queijo pra fazer receita """vegetariana""". Gente, isso não faz o menor sentido!
Mesmo eu ainda consumindo produtos como ovos e leite eu não procurava na internet receitas "ovolactos". Eu procurava receitas veganas.
Teve um dia, que eu saí com uma amiga, que me contou que por influência minha, tinha se tornado vegetariana e estava tentando ser vegana. Eu fiquei muito contente e orgulhosa dela, de nós. Então a gente foi procurar o que comer, e lembro que paramos numa barraquinha de tapioca. Ela perguntou o que eu iria comer, como curiosidade né, do tipo "como você se vira?".
Eu disse que iria pedir uma tapioca com tomate, orégano, sem o queijo e com azeite. E dependendo da carrocinha, eles tem até outros vegetais e dão uma moral.
Ela viu o que eu consegui adaptar pra comer, pediu a mesma coisa, já q era a única opção sem carne só que colocou mussarela.
Eu fiquei meio frustada, porque ela tava comigo, ela tava vendo que era possível, e ela se limitou a pensar simplesmente "ah, é que eu não sou vegana ainda".
Gente, não é esse o pensamento.
Muito cuidado com essa zona de conforto. Tentar. Ser vegano é sobre tentar.

Pensamento n° 3
Muitas pessoas dizem que consomem ovos e leites por conta dos nutrientes. Não sabem se ao tirar esses alimentos vão desmaiar e morrer desnutridos.
Eu simplesmente não me preocupava com nutrientes que vinham do leite ou do ovo, assim como não me preocupei com os nutrientes que vinham da carne. Porque basta uma pesquisa de 30 minutos na internet pra saber que tudo isso é um mito. Veganos não possuem deficiência de proteínas, de cálcio, de ferro.. ou outros nutrientes. Tomar leite para se obter cálcio é uma verdadeira enganação, e isso já tem sido mostrado até em TV aberta, programas como "Bem Estar" já falaram sobre assunto. O leite da vaca é para o bezerro. O leite que precisávamos já tomamos quando crianças, das nossas mães.
A nossa única preocupação é a famosa B12 que precisa ser suplementada. E muitos ovolactos acreditam que o leite e ovo é uma grande fonte dela e por isso não param de tomar. Mas na verdade, a dosagem de B12 que tem nesses alimentos é bem baixa e mesmo consumindo, você pode ter deficiência dessa vitamina do mesmo jeito.
Aqui estão as principais fontes de B12:

Fígado bovino 
65,0
2167%
Fígado de vitela 
60,0
2000%
Fígado de cordeiro 
35,0
1169%
Caviar
16,0
533%
Ostras
14,5
483%
Salsicha de fígado 
13,5
450%
Coelho
10,0
333%
Bolinhos de fígado 
10,0
333%
Cavalinha (peixe) 
9,0
300%
Arenque (peixe) 
8,5
283%
Mexilhão
8,5
283%
Carne magra 
5,0
167%
Javali
5,0
167%
Truta
4,5
150%
Atum
4,3
143%
Ganso
4,0
133%
Peixe rosa 
3,8
126%
Saithe (tipo bacalhau) 
3,5
116%
Camembert
3,1
103%
Emental
3,1
103%
Cordeiro
3,0
100%
Pato (peito) 
3,0
100%

Se você não consome mais esses alimentos citados, você já não ingere uma quantidade grande de B12 a um bom tempo.
Para nós veganos, existem outros alimentos enriquecidos, mas não é o suficiente, precisamos suplementar, e você não precisa do ovo pra isso.

Decisão
Eu finalmente me tornei vegana quando fui em um churrasco de família e comi apenas: arroz, batata frita, molho vinagrete, farofa de banana (que eu fiz pra mim) e salada de maionese. Nos reunimos na mesa para comer, meu pai tinha até comprado queijo coalho pra mim, mas eu recusei (usando aquela lógica que comentei no 2° pensamento).
Só que o constrangimento começou quando eles perguntaram sobre diversas coisas sobre a minha alimentação, perguntaram sobre minha saúde, porque eu tinha decidido fazer isso, a vizinha chegou ao nível de dizer "feijão você come?", foi uma chuva de perguntas e descasos, e pra completar, minha mãe falou sobre a maionese que levava ovo e eu tava comendo:
- Você não é tão contra crueldade assim, tá comendo maionese...
Quando terminei o almoço, peguei meu prato, fui pra casa (estava na vizinha), me tranquei no banheiro e comecei a chorar. Entre lágrimas decidi me tornar vegana pra não compactuar com a exploração animal de forma alguma. Percebi que já estava a 1 mês acomodada e não na fase de transição. Essa foi a melhor decisão da minha vida.

Por último dizer que isso não é para travar uma guerra, é para alertar sobre a exploração animal que muitos não veem. E que se precisarem do meu apoio para se tornarem veganos, o terão.

Me acompanhem lá no insta, que posto mais o meu dia a dia: @thallitaxavier

Como passar um Natal sem crueldade animal

É sempre uma preocupação muito grande quando chega o Natal. Tão grande a ponto de diversas pessoas perguntarem desesperadas pra mim o que podem fazer no Natal. Qual a melhor receita, como resistir a todas as carnes da mesa ou como não partir pra cima da família por causa da crueldade exposta.

A coisa fica mais simples do que parece, quando a gente começar a questionar nossos hábitos alimentares.

Lembro de uma história, como se fosse hoje, do meu professor de geografia, rindo a beça das tradições natalinas do povo brasileiro. Ele dizia:
- Verão, um calor do caralho, e tem papai noel enfiado em roupa de camurça em shopping e o povo se matando pra comer castanha, que é quente pra cacete e cara. Natal aqui papai noel devia tá de bermudão, regata, e a gente não devia comer castanhas e sim frutas.

Essa crítica dele, era porque os brasileiros em pleno verão copiam hábitos natalinos norte americanos que estão passando frio no inverno. A gente tá quase morrendo de pressão baixa, mas abre nozes pra comer no dia 24. Por que a gente só reproduz as coisas? Por que não nos questionamos?

Nós podemos criar as nossas próprias tradições.

Não precisamos imitar alimentos de origem animal na ceia pra poder termos uma 'ceia de verdade'.
Pra quem acredita, estamos celebrando o aniversário de Jesus Cristo, certo? Então é uma festa. E na festa tem comida e presentes. Você não precisa se matar indo numa loja vegana do outro lado da sua cidade pra comprar tender vegano com textura de papelão só pra provar pros seus familiares que você também pode comer um tender. Simplesmente faça um prato gostoso. Não se prenda a "vou fazer aquela carne de soja que todo mundo acha que é carne" ou "vou fazer jaca pra acharem que é frango".
Simplesmente cozinhe, e faça algo que você adora, e que todos vão adorar também.
Dizer pra não procurar simulacros em ceias de Natal, não significa dizer que sou contra simulacros. Eu fico é doida com veganos de primeira viagem fazendo pratos desastrosos ou sem sentidos no Natal e depois reclamando que não recebem o apoio de ninguém.
Eu já fui essa pessoa, e eu queria não ter sido.
Eu comprei um tender caro, com textura bosta pra fazer na ceia e fingi que estava delicioso, mas não deixei ninguém provar com a desculpa de que "ah é meu, depois não sobra nada pra mim". Mentira minha, só não queria que sentissem o gosto da minha vergonha.

Natal em que comprei o tender de papelão que ficou bonito mas era bem ruinzinho. O melhor da ceia foi o cuscuz da minha prima, o arroz e meu assado de soja!

Fiz "batalhoada" no outro natal pra competir com Bacalhoada. PRA QUÊ???????
Uma bacalhoada sem bacalhau, será uma bacalhoada sem bacalhau. E todos disseram: legal, gostosa, só não tem bacalhau né?
Se for passar em família, venha com propostas diferentes. Vem com um estrogonofe de grão de bico, um bobó de couve-flor, moqueca de banana da terra, risoto de funghi, aquele prato que ninguém vai levar ou aquela receita secreta que só tu tem! Não leve nada pra ser comparado. No máximo chega com aquelas suas rabanadas suculentas e diga que foram feitas com leite vegetal, e são uma ótima opção sem crueldade e pra quem é alérgico a leite. Chega com o pé na porta, chega arrasando. Não faça merda nesse Natal!!!

Mas Thallita, eu não posso pensar no meu prazer? Não posso pensar em mim também? Eu adoro bolinhos de batalhau, adoro batalhoada, porque não posso comer no Natal?
Não tô proibindo ninguém gente, tô só dando dicas de como engatinhar, sabe? É o primeiro passo de como fazer sua família entender que você não é um alienígena. Construir uma boa relação com a família nessa data que todo mundo acha importante, é crucial. No próximo Natal, você estará oferecendo seus bolinhos e todos provando com o coração mais aberto, saca? No primeiro Natal sendo vegano, não se deixe cair em comparações. Óbvio que tudo que fazemos vai ser comparado, mas digo que a comparação não precisa estar dividindo espaço na mesa ali naquele momento, vai por mim, dá muito mais certo.

O que a gente quer mostrar é que não precisamos da carne na nossa vida. Não precisamos de nenhum alimento oriundo de exploração animal pra passar o Natal ou qualquer outro dia.

Eu já passei dessa fase, hoje se eu passo o Natal com a minha família, eles fazem até pratos pra eu comer (porque eles entendem o que isso significa pra mim).
Tem Natal que cada um leva um prato, tem Natal que 1 pessoa fica responsável por tudo, então cada Natal é de um jeito e uma proposta diferente.

O importante é ser feliz, e estratégico também!

No caso de dicas pra "resistir" as tentações. Acho que você teria que voltar duas casas do jogo do especismo, saca? As comidas do Natal são como todas as outras. Tem muita memória afetiva envolvida, mas é só comida feita com animais assassinados, coisa que você já sabe.
Se você tá precisando de ajuda pra resistir, significa que talvez você não tenha entendido direito o que é a luta pelos direitos animais.
Eu lembro o momento exato que decidi ser vegana, estava num churrasco, e arroz, vinagrete e batata frita foi suficiente pra mim. Não existia tentação, porque eu entendi o que aquele animal na grelha significava.

Óbvio que a gente tem vontades, por isso buscamos sabores parecidos, buscamos opções que nos remetam a determinados sabores porém sem crueldade. Mas pensa bem nas suas escolhas. Não venha com a desculpa de que "não deu pra preparar nada...". Passar um natal da sua vida mal planejado comendo arroz e feijão não vai te matar. No final você vai sentir orgulho de si mesmo, vai ser um passo e tanto pra essa caminhada de combate ao especismo que escolheu lutar.


Na minha ceia desse ano vai rolar: estrogonofe de grão de bico. Eu já comprei até o tofu na CADEG, faço a base do estrogonofe com creme de tofu!
Tô pensando em fazer um assado de batatas também, rabanada, frutas. Tá muito calor e a gente precisa se refrescar haha

Se eu tivesse jaca, faria um assado de jaca que adoro!

























É bem fácil de fazer, é só cozinhar a carne da jaca, desfiar tudo, e misturar tanto a carne quanto o bagaço (só dá uma destrinchada nele). E aí você coloca todos os temperos que quiser, e faz a forma do assado numa assadeira. Aí você pincela com um molho de sua preferência, eu curto bastante o barbecue, coloco tanto na mistura quanto por cima. Deixo assar por uns 30 a 40 minutos e fica uma delícia!

Vou deixar aqui algumas dicas do que você pode fazer, não necessariamente siga o passo a passo, mas deixa a sua criatividade fluir!



E aí, bora de Natal sem crueldade animal?

Isentona eu não sou!

Se tem uma palavra que eu amei nessas eleições é "isentona". 
Isentona é o novo "cagona" do rolê.
E isentona eu jamais serei!
Acho que pelo título do blog, e pelos diversos assuntos que falo aqui, todos sabem o que eu penso politicamente. 
Mas eu não vou ficar jogando indireta em quem vou votar ou ficar falando em códigos em quem faz mal pro país. Eu luto contra a exploração animal não humana, eu sou mulher preta e eu me posiciono. Eu digo que no Bolsonaro eu não voto. Nesse segundo turno, vai ser Haddad, porque eu zelo pelo democracia e sou totalmente contra um retrocesso dos movimentos sociais nesse país.
E em meio a esse mix de sensações, eu viajei pra São Paulo.

Como muitos de vocês sabem, eu fui convidada pra palestrar no VegFest, um congresso organizado pela Sociedade Vegetariana Brasileira.
Até ano passado, eu nem sabia que esse rolê existia. Quando teve a edição em Campos de Jordão, muitas pessoas me perguntaram "você vai?" E eu fiquei tipo: "Quê?".
Até que uns meses atrás, uma amiga querida, Ioná Ricobello, que trabalha na SVB, me perguntou o que eu achava de palestrar no evento, que esse ano seria em SP.
Com o convite previamente aceito e a minha presença ainda não confirmada, eu aguardei a resposta de que eu realmente iria participar do congresso.
Até que recebi por email, a divulgação de todas as atrações e só tinha 1 palestrante negra, a chef de cozinha Cá Botelho.
E eu como falo mesmo, mandei um email em resposta da programação, que nem sei se viram:

"Queridos um evento desse porte e somente uma mulher negra palestrante?
Que vergonhoso gente, cadê a diversidade? Cadê as oportunidades? 
Desse jeito aí as pessoas sempre vão achar que veganismo é pra rico, pq não dá pra se sentir representado vendo um monte de gente branca rica que só come coisa cara. "


Dias depois foi confirmada a minha presença no VegFest pela SVB, assim como a de diversos amigos que foram encaixados depois dessa primeira leva de confirmações no congresso. Aliás, diversas pessoas foram confirmadas depois da primeira programação.
E tudo isso, só foi possível, por causa das pessoas que trabalham na SVB e não vivem numa bolha. E sabem que o mundo é plural e que veganismo é político.
Como falar sobre revolução dos bichos e dizer que isso não é política? Isso não é um ato fofo, isso é posicionamento político, é sobre ética. Como defender os animais não humanos e não lutar pela tua própria raça?
É uma incoerência que não dá nem pra explicar.
Como um ser humano acha possível lutar pelos animais não humanos, ao lado de racistas? De transfóbicos? De machistas? Como lutar por outra espécie se você quer matar a sua? Isso é quase que uma anomalia da natureza.

Com uma ajuda de custo mínima, viajei. E aliás, descobri que existe amor em SP por conta disso.
Apenas com a minha passagem custeada pelo congresso, tive que correr atrás de cobrir os gastos com alimentação e estadia. E durante esse corre, me senti acolhida pelos meus amigos que já tinha e os que fiz por São Paulo.
Minha estadia ficou por conta da minha amiga Renata e seu companheiro Rafael, que me aturaram por longos e incansáveis 7 dias em sua casa <3
E a ajuda com a minha alimentação, foi graças ao André Vieland, que se disponibilizou pra criarmos um evento juntos e arrecadarmos grana.
O Ruan, chef de cozinha, também foi participar do VegFest pra uma demonstração culinária. Mas ao contrário de mim, ele não teve nem a sua passagem custeada. Por isso fiz questão, de que ele participasse do evento que estava planejando com o André, pra que pudéssemos compartilhar o lucro, já que ele é favelado tanto quanto eu.
Então no dia 12 de Outubro teve a minha palestra no VegFest. E no dia 15 de Outubro, teve um jantar + roda de conversa na fábrica da MunArtesanal.


Sobre o VegFest
Foi lindo, mas não tudo. E eu gostaria de deixar muito claro isso a partir de agora.
A perfeição, pra mim, não significa algo sem falhas. Perfeição pra mim é quando tudo se supera e no final a gente diz "caramba, foi perfeito", porque as falhas foram mero detalhes.
Então em certa parte sim, foi emocionante, mas também me decepcionei muito.

Em primeiro lugar, eu quase desisti de ir quando descobri que pra participar de todo o evento tinha que pagar R$420,00.
Qual o sentido, de falar sobre Veganismo nas Periferias pra pessoas que puderam pagar R$420,00 num ingresso?
Além desse valor absurdo, me incomoda muito um congresso organizado por uma ONG, com o objetivo de informar mais as pessoas sobre veganismo, ser pago. Pra que um evento desses dentro de um hotel caro? Porque não dentro de uma faculdade?
"Ah Thallita, mas não é tão simples assim..." nunca falei que seria fácil. Só é ridículo ver o incentivo ao consumo livre pra todos e a informação ser algo privado. Triste.

Eu fui angustiada a viagem inteira. Mas fui tentando me lembrar de que qualquer espaço que não sou bem vinda, é nele mesmo que tenho que estar pra tirar as pessoas da sua zona de conforto.
Fui tentando me alimentar dos meus amigos pobres que juntaram dinheiro durante UM ANO, pra poder ter acesso as palestras.
Eu não sou bem vinda em espaços como o Novotel. E isso infelizmente não tem quem mude. Essa é a minha realidade enquanto mulher preta numa sociedade racista.
Eu não me senti bem vinda, mas me senti bem acolhida pelos meus amigos, tanto os que foram pra me assistir, quanto os que estavam como voluntários do evento. E foi nisso que me apoiei naqueles dias.

A minha palestra me emocionou de verdade, eu vim logo em seguida das meninas do Outras Mamas, Thais Goldkorn e Bárbara Miranda que arrasaram demais e falaram muitas coisas necessárias.
Durante a minha fala eu me surpreendi que aquela sala estava lotada enquanto outras não. As pessoas estavam ali pra ouvir uma preta, falando sobre consumo consciente, falando sobre revolução, falando sobre periferia.

Eu fiquei com o coração na mão, porque no mesmo horário da minha palestra, Aris Latham tava fazendo demonstração culinária e falando sobre saúde do povo preto.
Ou seja, além de pagar caro, as pessoas não tem direito a assistir todas as palestras disponíveis, porque tem um monte de conflito de horário, pior do que quando você tenta se formar na faculdade!
Que o congresso durasse 1 mês, mas que fosse possível assistir tudo. Cada informação ali era de ouro. A não ser ter que escutar dono da NoMoo falando sobre empreendedorismo (mas por algum motivo do destino ele não foi). Não sou obrigada monamour, quem vota em racista, racista é. E de racista quero distância!

Mas além do conflito de horários cortar o coração de uma fã de Aris Latham (ainda não superei), eu só tinha 50 minutos. Eu fiquei tentando pensar desde do dia que descobri que teria só 50 minutos, o que faria em míseros 50 minutos. E acabei fazendo uma dinâmica diferente da que costumo fazer nas minhas palestras. Deu certo, mas foi muito ruim ter tão pouco tempo, 50 minutos pra uma palestra, pra um debate, não é nada.

Depois de assistir algumas palestras, eu fui na feira que era aberta ao público pra comer. Tava varada de fome. Senti muita falta de pratos de comida, tinha 98% lanche e 2% de prato de comida. Quem organiza feiras, sabe que dá pra direcionar preços e produtos, então era possível a organização colocar uma composição mais equilibrada, já que as atrações começavam 7h da manhã e iam dia a dentro. Então tinha que ter um equilíbrio melhor das opções de comida pra quem estava lá o dia inteiro não comer só salgado e hambúrguer.

Algumas pessoas, me marcaram no post que o "Vegano Periférico" fez no instagram sobre a feira.
Eu concordo com cada vírgula que ele falou, e acho que as pessoas tem que "relaxar" um pouco de achar que são os salvadores da pátria. Mano, a gente é preto, pobre, e a gente vai expor questões que percebemos.
"Ah, mas a gente tá tentando" gente, continuem, não se sintam desmotivados, tenham empatia pra nos enxergar e ver o quanto é frustante pra gente, mesmo num evento onde um monte de gente tenta mudar as estruturas sociais, percebermos coisas que muita gente branca privilegiada não percebe.
Então se você é um branco/classe média que faz a sua parte e tá em constante luta pra desconstruir esse sistema que fode a gente, mano, não se preocupa, só se solidariza com a nossa dor e com depoimentos como o dele.

Eu só tenho um ponto, que gostaria muito que as pessoas entendessem de uma vez por todas. E esse recado vai pro vegano periférico também.
Eu sou pobre e consumo. Mas eu também sou uma negra pobre que tem a própria marca e por muitas vezes participa de feiras como essas.
A gente acorda cedo, fica sem dormir pra conseguir fazer tudo, fica com dor no ombro de tanto mexer panela, pagou R$800 conto ou mais pra conseguir expor, paga ingredientes, paga ajudante, paga frete e você quer comer coxinha a 2 conto?
Porra mano, cadê a empatia? É meu trampo. Passa a valorizar isso um pouco também. Por muitas vezes, se a pessoa vende mais caro em feiras, é porque deu muito trabalho pra ela estar ali. O preço final do produto, tá embutido todos os custos dividido pelo número de produtos que ela vai vender. Se eu cobro um lucro de R$5,00 por coxinha, tu acha caro? Se o custo pra fazer a coxinha, foi R$3,00 e eu cobro R$8,00, tu acha caro? Coxinha é um salgado que é um inferno fazer, e a gente faz.
A jaca é de graça, mas e a passagem pra pegar a jaca? E o rolê pra tirar a jaca da árvore? Cozinhar jaca não é igual cozinhar peito de frango, demora o triplo de tempo, tem que ter cuidado pra desfiar...Não esquece da nossa mão de obra pra fazer tudo.
Mas o mais importante, lembre-se o quanto pagamos pra expor ali, e por isso o produto ficou mais caro.
E claro, se atenha ao fato de que aquilo é uma feira gastronômica. Se você for em qualquer outro parque de food truck, e comprar um hambúrguer de picanha, vai tá caro também em relação a uma hamburgueria que abre de domingo a domingo.
Agora se a gente for discutir preço de estabelecimentos, é outro rolê. Aliás, tô pra fazer um post só disso, porque é muita coisa!
E já deixo uma palhinha.. fui na Dona Selma. Honestão.
Doze conto o PF mais bem servido que já comi em toda a minha vida. Mas reflete aí também, quanto Dona Selma tem que ralar pra ter um lucro maneiro e pagar as contas vendendo tudo tão barato... é foda. Se tu puder, não paga só o preço que tá ali. Dá um trocado a mais. Incentiva a cozinheira que tá ralando do outro lado do balcão pra te atender. Valoriza!
Claro, não se sinta culpado se você só pode pagar R$12,00. É só uma reflexão, porque muitas vezes a gente cobra mais barato não é só pra ser justo, as vezes a gente também quer se inserir no mercado que é selvagem, e que se a gente não engolir ele, vai engolir a gente! Eu sei disso porque eu já trabalhei com quentinhas, e vendia muito barato. E não era só porque queria um público que não podia pagar muito. Mas era também porque se eu vendesse mais caro, ninguém compraria, e eu preciso pagar minhas contas.
De um lado meu prato de estrogonofe, do outro almôndegas da Rê e do Rafa, todos com uma saladinha

MAS... eu só gostaria de dizer que: esse é o olhar crítico de uma favelada que foi convidada pra um evento pago em um hotel em São Paulo. É óbvio que eu vou perceber coisas que muitos não percebem. Eu já tô preparada pra ouvir as pessoas falarem "que bobeira, é convidada e ainda é mal agradecida".
Eu só quero um espaço justo, não é só nos eventos veganos. Eu incomodo todos os espaços que eu tô.

Eu espero que as críticas sejam lidas como construtivas e não provocativas ao evento, porque eu gostei de ter ido, me emocionei com muitas coisas, adorei juntar os pretos do evento (de longe a quantidade que queria, mas lindo ver a gente ocupando um pouco).


Sobre o jantar + roda de conversa
Ah, foi perfeito!
Ver tanta gente bonita reunida, pra compartilhar histórias e estratégias, é a revolução tomando forma. É a consciência indo além do umbigo!



























O jantar custava R$50,00 e todo mundo saiu de lá rolando. Foi um cardápio maravilhoso, elaborado pelo chef Ruan Félix.
croquetes de berinjela defumada com batata e maionese de alho




























Cozido de feijão branco com shitake, tomate seco e abóbora




























Quirera de milho com quiabo assado, tempeh grelhado e salsa criolla (Salsa criolla de tomate, cebola roxa, pimentões, vinagre, salsinha e tabasco)





























arroz doce com leite de coco, coulis de frutas vermelhas e farofa doce com coco, tapioca e mascavo








Eu não tenho palavras pra descrever o quanto foi lindo, tudo!
Tava meio apertadinho, mas a gente se entendeu e se divertiu! Queria agradecer imensamente a MunArtesanal por ter cedido o espaço pra fazermos esse evento!
Agradecer a Ariane Sosnoski, que ficou na cozinha ajudando os meninos, e principalmente agradecer a todos que compareceram, porque vocês ajudaram a mim e Ruan a sobreviver em SP!

Inté